Home Data de criação : 09/09/07 Última atualização : 11/10/17 11:14 / 16 Artigos publicados

URGENTE: Choque acontece nas linhas ferroviárias que se cruzam entre o Cordel e o Violão de Rua  escrito em terça 01 dezembro 2009 18:52

“Uma comunicação a várias mãos”, é isto o que são os cadernos do povo brasileiro (violão de rua), livros de poemas organizado em colaboração com o centro popular de cultura, da une. Que surge com a intencionalidade de impulsionar a revolução do homem brasileiro através da poesia:

“Consciência mais consciência, eis o que se pede portanto.”

Os poetas destes livros se voltam para os fatos de sua terra e sua gente. Violão de rua é um livro que se coloca, também, ao lado do proletariado e do campesinato, das suas lutas e aspirações.

E não são só os poetas dos cadernos do povo brasileiro que buscam este empenho popular , também observamos esta motivação (social e política) por parte dos cordelistas

Ana Maria de Oliveira Galvão em seu livro “cordel leitores e ouvintes” diz que o prazer, o lazer e o divertimento aparecem como as principais motivações para a leitura dos folhetos, mas que estas motivações também contribuem como importates meios de sociabilidade.

Ao lado do rádio e do jornal, porém de maneira mais prazerosa contribuindo para que as notícias fossem divulgadas entre alguns segmentos da população.

Finalmente o folheto desempenha um papel, embora secundário, também de instrução e educação das pessoas. O que favorece na alfabetização e na sua formação como leitores e ouvintes.

O que diferencia o Cordel do Violão de Rua, com relação às temáticas abordadas, está voltado para o fato de que: No Violão de Rua a temática político-social está muito mais acentuada do que o Cordel. Embora também seja sensível a uma linguagem que não se distancie dos ritmos populares.

Ambos possuem diferentes formas e estilos que vêm servindo às diversas individualidades criadoras, no Brasil, para expressar seus sentimentos de inconformidade ou suas exigências de um mundo mais livre e, portanto, mais humano.

Por isso o que mostramos neste blog não tem a intencionalidade de se construir um panorama geral ou uma antologia da moderna poesia social brasileira. Sabemos que a tarefa é bem mais ampla...

E para mostrar esta amplitude mostramos uma lista tirada do blog de um estudioso e Cordelista Gustavo Dourado (http://www.gustavodourado.com.br) afirmando que, renomados criadores da arte e da literatura brasileira foram influenciados pela literatura de cordel. Saliento os principais: Ariano Suassuna, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto, Manuel Bandeira, Dias Gomes, João Ubaldo Ribeiro, Orígenes Lessa, Cora Coralina, Carlos Drummond de Andrade e tantos outros artistas significativos. Na música, além de Villa-Lobos, a presença do cordel é marcante em Luiz Gonzaga, Elomar, Zé Ramalho, Raul Seixas, Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Ednardo, Xangai, Fagner, Elba Ramalho, Zeca Baleiro, Lenine, Chico Science, Chico César, Amelhinha, Juraíldes da Luz, Chico Buarque, Geraldo Vandré, Cartola, João do Vale, Jackson do Pandeiro, Jorge Mautner, Tom Zé, Dominguinhos, Clodo, Climério e Clésio(Os Irmãos Ferreira do São Piauí e de Brasília), Sivuca, Zé Gonzaga, Marinês, Hemeto Paschoal, Pixinguinha, Noel Rosa, Ary Barroso, Vital Farias, Diana Pequeno, Roberto Correia, Nando Cordel, Cordel do Fogo Encantado, Jorge Antunes, Genésio Tocantins, Beirão, Torquato Neto, Capinan, Pessoal do Ceará, Gilberto Gil, Maria Betânia, Vinícius de Moraes e Caetano Veloso. Só para lembrar alguns nomes expressivos. A lista é quilométrica.

Pois é Leitores, a lista de escritores e poetas que tiveram poesias publicadas nos livros “Cadernos do povo Brasileiro” também é extensa. Como o intuito aqui não é esgotar nenhum assunto, gostaríamos de ressaltar, mais uma vez, a importância para a Cultura Brasileira destas obras populares. “Que são de todos quantos neste país se interessam pelo ingresso da vivência dos poetas nos problemas da sociedade ou do tempo em que vivem.”

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Ao trabalhador brasileiro, dedico:  escrito em terça 01 dezembro 2009 16:45

 Patativa do Assaré surge mais uma vez no blog. Pois é, mostraremos a partir de uma de suas obras e de outras do grande Vinicius de Moraes um dos momentos em que os movimentos culturais Cordel e Violão de rua se cruzam.

Faremos isso através de uma comparação entre “O agregado e o operário” de Patativa do Assaré e “Os homens da Terra” e “O operário em construção” de Vinicius de Moraes.

Para quem não sabia, Vinicius de Moraes teve esse dois poemas publicados no volume 1 do “Cadernos do povo brasileiro. Poemas para liberdade” (violão de rua), publicado em .

Agora, veja como Assaré e Vinícius retratam o trabalhador urbano e rural em sua poesia. São poemas compridinhos mas vale a leitura e  também poderemos comparar melhor!!!

O agregado e o operário – Patativa do Assaré

Sou matuto do Nordeste, 
Criado dentro da mata. 
Caboclo cabra da peste, 
Poeta cabeça-chata. 
Por ser poeta roceiro, 
Eu sempre fui companheiro 
Da

dor, da mágoa e do pranto. 
Por isso, por minha vez, 
Vou falar para vocês 
O que é que eu sou e o que eu canto:


Sou poeta agricultor,
 
Do interior do Ceará.
 
A desdita, o pranto e a dor,
 
Canto aqui e canto acolá.
 
Sou amigo do operário
 
Que ganha um pobre salário,
 
E do mendigo indigente.
 
E canto com emoção
 
O meu querido sertão
 
E a vida de sua gente.
 

Procurando resolver 
Um espinhoso problema,
 
Eu procuro defender,
 
No meu modesto poema,
 
Que a santa verdade encerra,
 
Os camponeses sem terá
 
Que os céus desse Brasil cobre,
 
E as famílias da cidade
 
Que sofrem necessidade,
 
Morando no bairro pobre.
 

Vão no mesmo itinerário, 
Sofrendo a mesma opressão.
 
Na cidade, o operário;
 
E o camponês, no sertão.
 
Embora, um do outro ausente,
 
O que um sente, o outro sente.
 
Se queimam na mesma brasa
 
E vivem na mesma guerra:
 
Os agregados, sem terra;
 
E os operários, sem casa.
 

Operário da cidade, 
Se você sofre bastante,
 
A mesma necessidade
 
Sofre o seu irmão distante.
 
Sem direito de carteira,
 
Levando vida grosseira,
 
Seu fracasso continua.
 
É grande martírio aquele
 
A sua sorte é a dele
 
E a sorte dele é a sua!
 

Disso, eu já vivo ciente: 
Se, na cidade, o operário
 
Trabalha constantemente
 
Por um pequeno salário,
 
Lá no campo, o agregado
 
Se encontra subordinado
 
Sob o jugo do patrão,
 
Padecendo vida amarga,
 
Tal qual o burro de carga,
 
Debaixo da sujeição.
 

Camponeses, meus irmãos, 
E operários da cidade,
 
É preciso dar as mãos
 
E gritar por liberdade.
 
Em favor de cada um,
 
Formar um corpo comum,
 
Operário e camponês!
 
Pois, só com essa aliança,
 
A estrela da bonança
 
Brilhará para vocês!
 

Uns com os outros se entendendo, 
Esclarecendo as razões.
 
E todos, juntos, fazendo
 
Suas reivindicações!
 
Por uma Democracia
 
De direito e garantia
 
Lutando, de mais a mais!
 
São estes os belos planos,
 
Pois, nos Direitos Humanos,
 
Nós todos somos iguais

 

Os Homens da Terra -  Vinicius de Moraes

Senhores Barões da terra
Preparai vossa mortalha
 
Porque desfrutais da terra
E a terra é de quem trabalha
Bem como os frutos que encerra
Senhores Barões da terra
Preparai vossa mortalha.
Chegado é o tempo de guerra
Não há santo que vos valha:
Não a foice contra a espada
Não o fogo contra a pedra
Não o fuzil contra a enxada:
- União contra granada!
- Reforma contra metralha!

Senhores donos da Terra
Juntais vossa rica tralha
Vosso cristal, vossa prata
Luzindo em vossa toalha.
Juntais vossos ricos trapos
 
Senhores Donos de terra
Que os nossos pobres farrapos
Nossa juta e nossa palha
Vêm vindo pelo caminho
Para manchar vosso linho
Com o barro da nossa guerra:
E a nossa guerra não falha!

Nossa guerra forja e funde
O operário e o camponês;
Foi ele quem fez o forno
Onde assa o pão que comeis
Com seu martelo e seu torno
Sua lima e sua torquês,
Foi ele quem fez o forno
 
Onde assa o pão que comeis.

Nosso pão de cada dia
Feito em vossa padaria
Com o trigo que não colheis;
Nosso pão que forja e funde
O camponês e o operário
No forno onde coze o trigo
Para o pão que nos vendeis
Nas vendas do latifúndio
Senhor latifundiário!
Senhor Grileiro de terra
É chegada a vossa vez
A voz que ouvis e que berra
É o brado do camponês
Clamando do seu calvário
Contra a vossa mesquinhez.

O café vos deu o ouro
Com que encheis vosso tesouro
A cana vos deu a prata
 
Que reluz em vosso armário
O cacau vos deu o cobre
Que atirais no chão do pobre
O algodão vos deu o chumbo
Com que matais o operário:
É chegada a vossa vez
 
Senhor latifundiário!

Em toda parte, nos campos
Junta-se a nossa outra voz
Escutai, Senhor dos campos
Nós já não somos mais sós.
Queremos bonança e paz
Para cuidar da lavoura
Ceifar o capim que dá
Colher o milho que doura,
Queremos que a terra possa
Ser tão nossa quanto vossa
Porque a terra não tem dono
 
Senhores Donos da Terra.
Queremos plantar no outono
Para ter na primavera
Amor em vez de abandono
Fartura em vez de miséria.

Queremos paz, não a guerra
Senhores Donos de Terra ...
Mas se ouvidos não prestais
 
Às grandes vozes gerais
 
Que ecoam de serra
em serra
Então
vos daremos guerra
Não há santo que vos valha:
 
Não a foice contra a espada
Não o fogo contra a pedra
Não o fuzil contra a enxada:
- Granada contra granada!
- Metralha contra metralha!

E a nossa guerra é sagrada
A nossa guerra não falha!

 

 

O Operário em Construção -  Vinicius de Moraes

 

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender
por que um tijolo

Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
– Garrafa, prato, facão – 
Era ele quem os fazia 
Ele, um humilde operário, 
Um operário em construção. 
Olhou em torno: gamela 
Banco, enxerga, caldeirão 
Vidro, parede, janela 
Casa, cidade, nação! 
Tudo, tudo o que existia 
Era ele quem o fazia 
Ele, um humilde operário 
Um operário que sabia 
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento 
Não sabereis nunca o quanto 
Aquele humilde operário 
Soube naquele momento! 
Naquela casa vazia 
Que ele mesmo levantara 
Um mundo novo nascia 
De que sequer suspeitava. 
O operário emocionado 
Olhou sua própria mão 
Sua rude mão de operário 
De operário em construção 
E olhando bem para ela 
Teve um segundo a impressão 
De que não havia no mundo 
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois
além do que sabia

– Exercer a profissão –
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.

E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que
sempre dizia
 sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:

Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.



E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.

Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
– "Convençam-no" do contrário –
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu
trabalho prosseguia

E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
– Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

– Loucura! – gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
– Mentira! – disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.

Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.

 Seguindo a canção ...

 Assaré  escreveu “O Agregado e o Operário”  pois tinha o sentimento de que o agregado, ou seja, o camponês se sentia menor do que o operário e segundo ele os dois são iguais mas se sentem diferentes por serem de meios diferentes.

 Veja bem, meu bem :

 Vão no mesmo itinerário, /Sofrendo a mesma opressão.

Os agregados, sem terra; / E os operários, sem casa. 

 Assaré faz essa comparação durante todo o poema, não faz?

Sim, ele deixa claro em suas palavras que operário e agregado são uma gente só. E o que mais?

Procura levar essa gente ao conhecimento disso tudo levá-los a um processo de conscientização para que assim possam tomar providências.

 Preste atenção :

 É preciso dar as mãos / E gritar por liberdade. 

E todos, juntos, fazendo / Suas reivindicações! 

 Vinicius coloca os homem da terra e o operário nessa mesma igualdade em seus poemas apresentados anteriormente neste artigo.

 Nossa guerra forja e funde / O operário e o camponês

 Também faz isso na revolta do homem da terra e do operário contra o seu explorador e opressor, o dono da terra , o patrão.

Essa revolta se dá quando o trabalhador percebe que o que é feito pelas suas próprias mãos é o que enriquece seu patrão, e ele por sua vez passa dia atrás de dia na mesma situação.

 Foi ele quem fez o forno / Onde assa o pão que comeis.

Queremos que a terra possa / Ser tão nossa quanto vossa
Porque a terra não tem dono
 /Senhores Donos da Terra.

Podemos ver todo o processo de conscientização resultando na revolta do que para o operário era injusto, nos versos a seguir de “O Operário em Construção”.

 Como tampouco sabia

Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

Ai mostra a situação cega em que o operário está. Apenas produzindo para o patrão sem mudar de vida mesmo construindo prédios e casas.

Depois a tomada de consciência:

O operário foi tomado

De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
– Garrafa, prato, facão – 
Era ele quem os fazia 
Ele, um humilde operário.

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A SAGA DO CORDEL NA TERRA DO CACAU  escrito em terça 24 novembro 2009 11:57

Originalmente, a literatura de cordel é vinculada a narrativas tradicionais perpassadas pelo povo, histórias restritas ao passado. No entanto, por vezes, também descreve fatos recentes, agindo de forma quase que semelhante a um jornal.

Provavelmente, esse tipo de poesia popular provém do hábito de compartilhar histórias, na narrativa dos chamados “causos”, em família ou em quaisquer outros aglomerados de pessoas.

O cordel se estende por campos incrivelmente amplos: é poesia, narrativa, informativo e música.

Para aprofundar mais a discussões sobre cordel, indicamos a produção intitulada “ A saga do Cordel na Terra do Cacau”, cujo vídeo está em nosso blog, onde é retratado o que vem ser o cordel. Posteriomente, fala-se das origens européia do gênero, da estrutura formal dessa poesia popular, sua ilustração mediante a xilogravura e a relação entre repente e cordel. Na segunda parte do vídeo, tomamos conhecimento sobre alguns dos cordelistas da Terra do Cacau (Ilhéus e Itabuna na Bahia) contando-nos um pouco sobre a biografia dos artistas (http://www.youtube.com/watch?v=1LifqwwRTYA&feature=related) . Apreciem!

 

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O PRECURSOR DO CORDEL BRASILEIRO  escrito em segunda 02 novembro 2009 14:21

Blog de cordeleviolaoderua :Cordel e Violão de Rua, O PRECURSOR DO CORDEL BRASILEIRO

Leandro Gomes de Barros nasceu no dia 19 de novembro de 1865, em Pombal, e morreu no dia 4 de março de 1918, em Recife. Foi e é considerado como o primeiro e mais importante escritor de literatura de cordel no Brasil.

 Tendo escrito mais de 230 obras é um autor de vários clássicos e campeões de vendas, com folhetos que ultrapassaram o número dos milhões de cópias vendidas. Escrevia para sertanejos, matutos, cantadores, cangaceiros, almocreves, comboieiros, feirantes e vaqueiros lerem.

Era conhecido por escrever seus versos populares, arquitetando romances e narrando aventuras, os quais eram decorados pelos cantadores Manoel Monteiro, Klévisson, Arievaldo Viana. Um de seus romances mais conhecidos é A Força do Amor (Alonso e Marina), que tem como continuação a obra-prima: A Morte de Alonso e a Vingança de Marina. A obra, bastante popular, de Ariano Suassuna, o Auto da Compadecida, foi, também, escrita por Leandro Gomes de Barros.

 Outra de suas obras mais relevantes foi – A Batalha de Oliveiros com Ferrabrás e A Prisão de Oliveiros, esta composta em décimas é a maior honra à presença francesa na tradição oral brasileira.

Segundo Permínio Ásfora, teria sido preso em 1918 porque o chefe de polícia considerou afronta às autoridades alguns dos versos da obra O Punhal e a Palmatória, trama que tratava de um senhor de engenho assassinado por um homem em quem teria dado uma surra. O versos de O Punhal e a Palmatória eram:

 

Nós temos cinco governos

O primeiro o federal

O segundo o do Estado

Terceiro o municipal

O quarto a palmatória

E o quinto o velho punhal

 

A História da Donzela Teodora é outro triunfo de Leandro Gomes de Barros. Versão de um romance tradicional é um hino de amor à mulher sábia. Segue abaixo um trecho deste romance.

História da Donzela Teodora

Eis a real descrição
Da história da donzela
Dos sábios que ela venceu
E a aposta ganha por ela
Tirado tudo direito
Da história grande dela

Houve no reino de Túnis
Um grande negociante
Era natural da Hungria
E negociava ambulante
Uma alma pura e constante

Andando um dia na praça
Numa porta pôde ver
Uma donzela cristã
Para ali se vender
O mercador vendo aquilo
Não pôde mais se conter

Tinha feição de fidalga
Era uma espanhola bela
Ele perguntou ao mouro
Quanto queria por ela
Entraram então em negócio
Negociaram a donzela

O húngaro conheceu nela
Formato de fidalguia
Mandou educá-la bem
Na melhor casa que havia
Em pouco tempo ela soube
O que ninguém mais sabia

Mandou ensinar primeiro
Música e filosofia
Ela sem mestre aprendeu
Metafísica e astrologia
Descrever com distinção
História e anatomia

Ela que já era um ente
Nascida por excelência
Como quem tivesse vindo
Das entranhas da ciência
Tinha por pai o saber
E por mãe a inteligência

Em pouco tempo ela tinha
Tão grande adiantamento
Que só Salomão teria
Um igual conhecimento
Cantava música e tocava
A qualquer um instrumento

Estudou e conhecia
As sete artes liberais
Conhecia a natureza
De todos os vegetais
Descrevia muito bem
A castra dos animais

Descrevia os doze signos
De que é composto o ano
Da cabeça até os pés
Conhecia o corpo humano
E dava definição
De tudo do oceano
(...)

Leandro Gomes de Barros

 

 

Referências:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Leandro_Gomes_de_Barros

http://www.revista.agulha.nom.br/barros.html

http://www.algosobre.com.br/biografias/leandro-gomes-de-barros.html

http://marcohaurelio.blogspot.com/2009/04/leandro-gomes-de-barros.html

                                                         

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UMA PINCELADA DE CULTURA DO BRASIL  escrito em terça 27 outubro 2009 19:30

Blog de cordeleviolaoderua :Cordel e Violão de Rua, UMA PINCELADA DE CULTURA DO BRASIL

A Literatura Popular em verso já passou por várias incompreensões no passado, especialmente no Brasil. Ao contrário da Argentina, em que estas produções são aceitas e incluídas nos estudos Literários -pois é, tive que comparar com nossos "hermanos", e é por isso que poemas como "La cucaracha", de Martín Fierro, são cantados no mundo inteiro-. Mas esta é uma questão no Brasil que envolve problemas históricos e imitações de modelos intelectuais estrangeiros. Como o título bem diz mostrarei, digamos assim, a ponta de um iceberg...

Se tratando de Literatura popular, a Literatura de folhetos no Brasil constitui uma manifestação da cultura popular e como tal vem sendo descoberta pela inteligentzia cosmopolita ou pelo homo digitales. Escrevo aqui para demonstrar como a cultura popular muitas vezes é tida como "arte menor" neste país multicultural, que é o nosso. "Cordel", termo que já é amplamente utilizado para expressar determinada literatura, inclusive intitulado como parte do nome deste blog, esconde por trás do nome um desdém que provavelmente veio de uma parte da "elite cultural". Tal designação (como já mencionado por nós do blog) vem do modo como era exposta nas feiras e mercados do Nordeste, montada num pedaço de cordão. Com 20 anos de vida, nunca ouvi ninguém falar em cordel para pedir um pedaço de fio, ou barbante. O povo conhece cordão. E mesmo que se chamase este tipo de Literatura popular em verso de Literatura de Cordão, a designação permaneceria pejorativa, desvalorizando seu conteúdo. Porque não chamar as revistas de Literatura de arame, Literatura de cordão, ou Literatura de nailon? (já que estes materiais que montam e seguram as revistas nas bancas). Capisce?

É importante ressaltar que este tipo de poesia popular brasileira foi - e tem sido -  fonte de inspiração  para vários autores como Guimarães Rosa, Franklin Távora.,  Ariano Suassuna, etc, os quais bebem/beberam água da pura fonte e se inspiraram no nosso folclore para suas produções literárias. Mas já que o nome pegou e a Literatura popular em verso possui uma vasta produção  de seus autores, sejam Nordestinos, Sulistas, Mineiros, Cariocas, Paulistas ou Mato-grossense, a Literatura de Cordel é só uma pontinha mostrada aqui. Então usamos este nome também. Você também percebeu, caro leitor, que o movimento cultural que se vê é o que desce os morros ou os sertões nordestinos para ganhar o Brasil?

Vem da periferia para o centro, do interior para as capitais... Vinha dos quilombos para a corte? A Literatura de Cordel, O Maracatu, A Capoeira, O Samba, O Choro Canção, O Forró, A Xilogravura, O Frevo, O Funk "carioca", e tantas outras artes que surgem - e se destacam - em diversas regiões deste Brazilzão caminham num dinamismo impressionante! Gostem ou não, estas manifestações artísticas/folclóricas vão se aculturando aos costumes, à tecnologia, ao cotidiano, e vão ficando...

" Folclore é povo, povo que nunca deixará de existir. Nós, sim, é que realmente morremos." (Mário Souto Maior*)

Bibliografia:

"Literatura de Cordel - Antologia" (Vol 1 e 2). ed.: Global

Fundação Joaquim Nabuco: http://www.fundaj.gov.br

"Cordel - Minelvino Francisco Silva" ed. : Hedra

 

 

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